24 de outubro de 2010

Suspiro...ah...o meu Portugal.


Já cá muitas vezes escrevi sobre como as coisas vão mal em Portugal e como adoro os Estados Unidos e acho que são "a sociedade perfeita" (dentro de todas as sociedades que existem, são o que mais se aproxima de tal coisa, se é que isso existe).

A maior parte das pessoas toma os meus comentaráios como alguém que despreza as suas raizes, apenas por ser mal agradecido e, talvez até, um miudo mimado.

A realidade é, no entanto, outra.


Na minha mentalidade distorcida e doente, amo o meu pais de uma tal forma doentia que até me faz detestá-lo.
Nao aceito a justificação de que "somos pequenos". A justificacão de que "temos pouco território, trabalhamos com o que podemos".

E se não aceito essa justificação, que outra há para explicar o estado das coisas?
Na minha opinião, somos amaldiçoados com um dom: o dom de sermos desenrascados, conseguimos trabalhar sobre pressão e resolver as coisas mais complexas com soluções extremamente simples e engenhosas. Nao quero com isto dizer que sejam as perfeitas mas são as NECESSÁRIAS em tempos dificeis, quando mais ninguem consegue resolvê-las.

Esse dom, quando bem aproveitado, é uma das coisas mais bonitas que um homem pode ter.
Afinal, qual é o real valor de ser muito inteligente quando está tudo a nosso favor e nao há pressão?

Penso ser por isso que, geralmente, os Portugueses que emigram são a "creme de la creme" nos paises para onde saiem e têm o devido reconhecimento que não recebem no seu próprio pais. Por isso se sentem tão contentes fora da Pátria.

Talvez até nem sejam nada de mais quando comparados com os seus compatriotas (afinal, quase todos os de sangue Luso têm essa capacidade). Mas estes são os que conseguem canalizar esse dom para o bem.

Ora, esse dom também tem um lado negro (se não o tivesse, não o teria chamado de maldição).
É que, em tempos de aperto, o Português irá usar o seu dom para virar o sistema, aproveitando-se dele para conseguir o que quer. Lá estão as tais situacoes de pressão e difíceis.

E entao qual é o problema disto? Simples. Se houver corrupção a gerir o seu pais, cria-se um ciclo vicioso ALTAMENTE destrutivo, que só terminara com o colapso completo.

É que quem gere o nosso pais também é Português.

Isto significa que acabamos com gente corrupta que gere o pais como o seu parque de diversões privado e o cidadão, ao ser abusado, e posto sob pressão e as suas defesas naturais (o tal desenrascanço) é imediatamente activado.

E o que é que isso provoca? Bem, o gestor do parque de diversões não gosta de ter os divertimentos encravados (ja que isso lhe prejudica a diversão) e, sobre pressão, activa também o dom que a natureza deu a todos os Portugueses e arranja forma de desencravar o divertimento.

E este ciclo vicioso repete-se até ao colapso, Português contra o seu arqui-inimigo, ele mesmo.

Mas então, o que fazer? Qual a solução?
Falo com muita gente, dou a minha opinião, eles dão a deles e a conclusão é, geralmente, simples: alterar as politicas do pais, reduzir gastos com a função pública, não investir em projectos megalómanos, etc...

Oiço ideias brilhantes e soluções engenhosas.

E sabem que mais? Isso aborrece-me.

Chega a um ponto de exaustão onde já tudo foi discutido, tudo foi dito. E a maldade já se estabeleceu de tal forma que já nem a corrupção nos choca.

Como é possivel descobrirmos situações flagrantes, noticias de casos extremamente graves, que apontam claramente os culpados e apenas conseguimos pôr um sorriso na cara e dizer "sempre a foderem-nos, outro caso que não vai dar em nada"?

Isto vem, provavelmente, por outro dom amaldiçoado que a natureza nos deu. A bondade e o perdao.
É que o Português perdoa com demasiada facilidade e esquece quem o pisou.


E isto tem sido assim, gradualmente pior, desde o inicio, desde que nos tornamos Portugueses em 1139.
Começamos por lutar por algo que queriamos tornar a nossa Patria e fazemos uma viagem maravilhosa, ao longo dos tempos, andando por "mares nunca antes navegados", sem medo de superstições, estabelecendo novas colónias no que foi conhecido como o "Império Português". De facto, nessa altura o facto de sermos pequenos não era um problema...porque nos queriamos tornar grandes.

E continuamos prósperos, desenvolvendo os nossos dons, até ao ponto deles se tornarem na tal maldição.

E acho que o pico da sua evolução foi atingido quando descobrimos que quem fez sacrificios, mudando-se para colónias, depressa se torna independente e os colonizados não gostam de o ser. Foi o principio do fim.

Houve então a necessidade de qualquer coisa. Qualquer coisa que fosse diferente e que nos soltasse amarras.

A 5 de outubro de 1910, alguém trouxe novas de fora que nos diziam sermos livres e que podiamos escolher o nosso destino.

Mas nós não estavamos prontos. Essa foi uma mudança demasiado forte na nossa sociedade e nunca percebemos que aquele tio venerável que tanto admiramos e que nos trouxe a boa nova, tinha estado preso por falsificador.

Mostraram-nos o quão bom é o conceito da república mas não nos explicaram o que era, realmente, uma democracia.

Vejo isto como aquela tipica situação onde o mau professor pergunta "tem dúvidas?" e os alunos respondem "não". Afinal, como é possivel ter dúvidas de algo que não sabemos e pelo qual não nos interessamos?

Fomos implementando e olhando para o lado, como um miúdo que olha para o ar procurando um gesto de aprovação de um adulto.

E fomos andando, tropeçando pelo caminho, até irmos de encontro a um dos problemas de uma república: a ditadura.

Sem sabermos bem o que esperar, aceitamos a sina e, de vez em quando, olhavamos para o tio falsificador e perguntavamos desconfiados se aquilo era o que chamavam democracia? Mas, de volta, so recebiamos um olhar vazio.

Eis que chegamos entao a 1974 e, já desconfiados (tal como o bêbado da anedota, que acordava com o rabo dorido e com uma nota de 5 euros ao lado sem saber porquê), decidimos mudar de vinho para ver se isso eliminava a dor.

Foi uma boa tentativa. Afinal, se algo está mal e necessário mudar.
Mas o problema da dor no rabo não era, obviamente, a qualidade do vinho mas sim o estar embriagado.

E assim continuamos, de garrafa na mão, com vinho a martelo, esperando pela solução.
Eis que um grupo de pessoas muito iluminadas e sóbrias, vê a necessidade de criar um mercado livre e unir os paises para evitar futuras guerras e os tornar prósperos.

Tentaram, para isso, criar uma vinha e avisaram-nos que tinhamos de exportar o vinho e não o consumir (afinal, o traficante com sucesso é o que sabe que não deve consumir).

E nós, ainda embriagados, aproveitamos essa situação para bebermos mais um pouco.
Bebemos tanto durante os 24 anos seguintes que entramos em sucessivos comas alcoólicos.

E eis que chegamos ao presente dia.
Eu, emigrado, vou recebendo noticias da minha Patria e, desgostoso, anseio por qualquer coisa também.

Sei que o tal colapso está próximo e que isso trás boas novas. Afinal, depois da destruição só é possivel reconstruir, certo? Bem, tudo dependerá dos que ficam.

Tenho ponderado realmente muito sobre o que faz uma nação próspera (e o que a destrói). E acho que, neste momento, seria necessário uma invasão do nosso território para podermos refinar os nossos dons o suficiente para deixarem de ser uma maldição.

É que, historicamente, tenho-me apercebido que só colónias têm essa garra e espirito de inovação e sede de liberdade. Enquanto não sentirmos essa necessidade, a nossa maldição irá continuar a crescer e a consumir-nos, adaptando-nos a adversidade mas sempre com um sorriso nos lábios. Enquanto isso não acontecer, aquela bandeira lá em cima será apenas um pano com cores.

De Luis Miguel Silva


5 comentários:

  1. Pois e, hoje acordei a pensar em nos (portugueses).

    ResponderEliminar
  2. Bem analisado. Não há duvida que é isso mesmo, só depois de bater no fundo é que vamos acordar e isso tem um preço muito alto. Somos assim... é o nosso fado.

    ResponderEliminar
  3. Obrigado :o)
    Curtiste a analogia ao bebado? HE HE HE ;o)

    ResponderEliminar
  4. Nada mais apropriado. Somos um país vinícola e como tal é correctíssima a analogia, para além disso mesmo os que só bebem água parece que andam bebados, portanto.... eheheheheh

    ResponderEliminar