Infelizmente, minhas senhoras, não é uma cama de prazer, mas de morte. João Miguel Tavares leu Leite Derramado e conclui que Chico Buarque devia ao menos ser feio para haver alguma justiça no mundo.O lançamento de Budapeste, em 2003, é o momento de viragem na carreira artística de Francisco Buarque de Hollanda: a partir daí, os seus livros começaram a ser melhores do que os seus discos. Com a chegada do seu novo romance, Leite Derramado, já não há como duvidar da excelência da sua costela literária, o que apenas torna tudo mais injusto e digno de inveja. Como é possível que este belo homem de olhos verdes, filho de um dos maiores historiadores do século XX brasileiro e razoável jogador de futebol, seja não apenas um dos melhores compositores de todos os tempos da MPB como um dos grandes romancistas actuais da língua portuguesa? Quando se diz que Deus é brasileiro, deve ter alguma coisa a ver com isto. E no entanto, o caminho até à consagração literária foi longo.
A queda para a escrita de Chico Buarque está bem expressa em toda a sua obra musical, mas os seus livros demoraram mais de três décadas a afirmarem-se. Embora Estorvo (1991) seja apontado como o seu primeiro romance oficial, Chico começou a escrever ficção ainda nos anos 70, com Fazenda Modelo e várias peças para teatro. A década de 80 foi quase inteiramente dedicada à música, regressando o Chico escritor – e aí já como romancista assumido – a partir dos anos 90. Mas apesar de elogios pontuais e êxitos de vendas constantes, a crítica demorou a render-se. Estorvo e Benjamim (1995) ainda foram olhados como hobbies, mais ou menos curiosos, do músico. Até que chegou Budapeste – um livro absolutamente extraordinário – e o escritor passou finalmente a perna ao cantor.
Ainda assim, nem sempre é fácil separar os dois mundos. O impulso que conduziu à escrita de Leite Derramado veio de uma canção, “O Velho Francisco”, editada em 1987, de que Chico já mal se recordava até a ouvir na voz de Mônica Salmaso. Ela termina assim: “Acho que fui deputado/ Acho que tudo acabou/ Quase que/ Já não me lembro de nada/ Vida veio e me levou.” É, de facto, um bom resumo da biografia de Eulálio Montenegro d'Assumpção, o protagonista da sua nova obra.
O livro é um longo monólogo de um moribundo, com Eulálio a morrer pobre e solitário na cama de um hospital, enquanto rememora os velhos tempos de glória e a sua antiga vida de aristocrata.
Nascido em 1907, Eulálio é um homem sem qualidades. Nunca fez nada de produtivo, nunca teve nenhum gesto grandioso, tudo nele é tristeza e decadência. O melhor (ou o pior) que fez na vida foi apaixonar-se perdidamente por uma adolescente mulata, Matilde, com quem teve uma criança e cujo desaparecimento – ainda a filha era bebé –, sem nunca ele saber porquê nem para onde, Eulálio nunca conseguiu superar. “Sem Matilde, eu andava por aí chorando alto”, escreve Chico. “Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco, porque minha pele tinha ficado presa naquela mulher.”
Entrevado e condenado, com a morfina a confundir as suas memórias, Eulálio é uma torrente de palavras. Essa longa rememoração, tantas vezes irónica, tem sido muito comparada ao Machado de Assis de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas há nela uma pungência e, por vezes, um tão profundo desencanto que o aproximam de um outro escritor brasileiro ilustre: o Raduan Nassar de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, insuperável analista dos mais obscuros sentimentos.
E ao mesmo tempo, como é próprio dos grandes escritores, a tragédia individual é também retrato de uma época: o da queda da casta Assumpção, cujo sangue nobre se vai diluindo de geração em geração, como se sobre ela actuasse um veneno.
Retirado daqui
Como não lhe chega ser um dos melhores compositores do mundo, Chico Buarque é também um escritor extraordinário.
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