30 de março de 2009

Respeito pela paisagem


1. Cavaco Silva voltou a apelar à pontaria da classe política. Decidam, mas decidam bem, exortou o mais alto magistrado da Nação. Foi tão longe quanto lhe permite a reserva institucional e o estilo discursivo e lembrou aos tais decisores que os contribuintes já não têm mais bolsos para tiros nos pés. Que tem de haver, no fundo, mais benefícios do que custos nos investimentos públicos.

É conhecida a suposta resistência do presidente da República ao ímpeto governamental de avançar com grandes obras de regime, mas das suas palavras apenas podemos intuir, com algum grau de probabilidade, que estará a referir-se ao TGV, ao novo aeroporto e às auto-estradas. Mas sem grandes certezas, porque não raras são as vezes em que Cavaco Silva decide falar sem se perceber exactamente o que quer dizer.

Seja como for, o debate é tão válido quão recorrente: vale ou não a pena hipotecar rios do nosso dinheiro em toneladas e toneladas de betão? Precisará o país do "Interior esquecido e ostracizado" (para utilizar uma terminologia lúdica embora certeira), o mesmo país onde Cavaco proferiu o tal apelo, de um comboio que circule quase à velocidade do vento? Precisará de um aeroporto "state of the art" (em Português livre, do melhor que há) quando o que tem, até prova em contrário, chega bem para as encomendas? E precisará esse mesmo país (onde, de vez em quando, vão os políticos de Lisboa) de levar, ano após ano, machadadas ferozes no seu brio, na sua identidade?

Não sei se por tradição ou comodismo, mas a verdade é que o discurso político em relação ao Interior permanece o mesmo há décadas: dêem-lhes estradas que o resto vem por acréscimo. Mas contenham-se, porque para o país ser Lisboa e o resto ser paisagem tem que ficar sempre alguma paisagem.

2. No Brasil, Jorge Sampaio foi mais claro (coisa que nem sempre sucedia quando era presidente): os portugueses (políticos e não só) devem deixar, de uma vez por todas, de perder tempo com assuntos periféricos. É o chamado síndrome do viajante: quando estamos fora do país, os ecos que nos inundam os ouvidos não serão os mais honrosos, mas espelham, com um assinalável fatalismo, aquilo que somos. E aquilo que somos, como bem assinalou Jorge Sampaio, é um país onde os principais partidos agem como duas crianças num infantário disputando não um guizo mas um cargo (a Provedoria de Justiça); um país que debate com mais vigor o erro de um árbitro do que o erro de um ministro. Um país que não se respeita nem se dá ao respeito.

ENQUANTO OS PUTOS SE DIVERTEM,
O POVINHO... VAI LEVANDO NO FOCINHO.




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