
O sonho de qualquer português que se preze é viver à sombra da bananeira, de preferência numa praia tropical. Deve ser por isso que temos a mais alta taxa de boletins do Euromilhões da Europa. Não só não acreditamos que podemos realizar os nossos sonhos através do trabalho por conta de outrém, como não acreditamos no valor do investimento. Queremos é consumir. Muito, e de preferência em pouco tempo.
É uma tendência transversal a toda a sociedade. Como povo, estamos nos antípodas dos judeus ou dos povos protestantes do centro e norte da Europa, que têm na poupança e no investimento um dos seus traços culturais mais persistentes. O sonho de qualquer português, do pobre ao rico, é ganhar muito e não fazer nada.
No contexto em que vivemos, os que menos têm, têm ao menos desculpa: continuarão a meter os seus boletinzinhos de Euromilhões à sexta-feira abnegadamente até ao fim dos seus dias, entalados entre a prestação do carro, a conta da mercearia e a mensalidade do empréstimo que lhes serviu para pagar as obras lá de casa ou até a viagenzita ao Brasil.
Cada vez mais entalados, cada vez mais numerosos, são portugueses para quem a palavra crise faz sentido. Porque são muitos, da classe baixa à classe média, são o alvo de todos os governos quando se trata de apertar o cinto. Destes, a maioria trabalhadores por conta de outrem, cada vez são mais os que sobrevivem por conta do plafond bancário do próximo ordenado. Saem cada vez menos, evitam restaurantes ao fim-de-semana.
Acima deles, há uma classe para quem a palavra crise não faz sentido. Por conveniência de linguagem, chamar-lhes-ei “os nossos ricos”. Na noite de passagem de ano uma repórter de televisão perguntava a um dos centos de convivas que ouviam Paul Anka no Casino Estoril se não o preocupava a continuação da crise em
Num país em que milhares de pessoas são quase diariamente despedidas, num país com dois milhões de pobres, num país em que há centenas de milhares a viver com menos de 200 euros de pensão, só um energúmeno podia dizer semelhante pérola. Mas a resposta teve ao menos o mérito de ser sincera. Na verdade, das centenas que estoiraram 500 euros numa noite para jantar, dançar e ouvir Paul Anka, a maior parte desconhece o significado da palavra crise.
São os nossos ricos. Aqueles a quem Cavaco Silva chamou à responsabilidade (a par do Governo) na sua mensagem de Ano Novo. Muitos deles são os responsáveis pelo esbanjamento de oportunidades nos anos da fartura, quando Portugal recebia dois milhões de contos por dia. Os anos dos jipes e dos montes no Alentejo, os anos das trapaças dos girassóis e do Fundo Social Europeu, os anos do betão e do fulgor da bolsa especulativa.
Os mesmos que então enganaram o País, porque enganaram o Estado, são aqueles que agora dão a desculpa do “Estado-ladrão” para não cumprirem as suas obrigações sociais. Desculpam-se que o IRC é alto, que o IVA é demasiado, que os descontos obrigatórios para a segurança social são em demasia.
Quando se lhes fala de países desenvolvidos com mais altas taxas de impostos, vêm com o argumento estafado (como ouvi na boca de um jovem dirigente do CDS-PP) de que “ao menos na Suécia as pessoas beneficiam do dinheiro que pagam”. Mas encolhem os ombros quando se argumenta que, ao contrário, os trabalhadores que empregam não têm por onde fugir. Eles querem lá saber de moral, ou justiça social.
Tenho para mim que, na sociedade capitalista, a desigualdade – mesmo a de oportunidades, em que não acredito de todo – é o preço que todos pagamos pela eficácia da gestão e do crescimento da economia. Isto é, há injustiças flagrantíssimas no modelo social dominante, mas até ver é aquele que garante maior nível de riqueza, e até igualdade, aos cidadãos como um todo.
Claro que há injustiças à partida, claro que o filho de um grande empresário jamais será pedreiro ou caixa de supermercado, ainda que não tenha qualquer queda para a gestão das empresas do pai ou sequer para usar os neurónios. Ao invés, o filho de um pescador terá quase todas as possibilidades de seguir as pisadas do pai.
Mas esse parece ser o custo que o todo social está disposto a pagar pela criação de riqueza no seu todo. E é consensual que a gestão privada tem índices de produtividade muito superiores à pública. O “interesse” aguça o engenho, a riqueza produz e distribui riqueza. Compete depois ao Estado não deixar que sobrevenha a selva. Centro-esquerda e Direita estão hoje de acordo: o modelo é este, a diferença é o papel social do Estado, como garante de distribuição de riqueza. Um papel maior ou menor. Antes assim que à soviética, com nomenklaturas privilegiadas, planos quinquenais, senhas de racionamento e bichas para o pão e para a carne.
O diabo, em Portugal, são os nossos ricos. Tal como os demais, a maioria deles não gosta de trabalhar. Mas enquanto os outros, mesmo não gostando, têm que o fazer (pelo menos enquanto não chega o Euromilhões), boa parte dos mais afortunados não usa o dinheiro para fazer crescer a sociedade. Pura e simplesmente, não está para se chatear.
Boa parte prefere investir na bolsa ou no imobiliário, receber umas rendas e passar a vida a passear. Isto não é exagero. Basta ver quais os carros cujas vendas mais crescem de há vários anos para cá
É por tudo isto que desconfio do crescimento
Invocando o exemplo finlandês, não vejo a possibilidade de uma qualquer Nokia salvadora no contexto social português. A culpa é, sobretudo, dos ricos que temos.
Jornalista
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